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Analise da prática do enfermeiro ao realizar a sistematização da assistência de enfermagem na unidade de terapia intensiva.
*Pedro Marco Karan Barbosa
*Sueli Moreira Pirolo
**Caroline Fernandes
**Maria Helena da Silva
**Robson Lopes Pinto .
A sistematização da assistência de enfermagem como prática do enfermeiro para mudança e qualificação do cuidado e a exigência legal que a envolve, estimulou o presente estudo que tem como objetivo analisar a pratica do enfermeiro referente à Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em indivíduos internados na Unidade de Terapia Intensiva, utilizando a linguagem diagnostica da NANDA. A metodologia consistiu-se em uma pesquisa descritiva, exploratório, de campo, com abordagem qualitativa. A coleta de dados foi norteada por um questionário semi estruturado e mediante a realização da entrevista de 11 enfermeiros assistenciais da Unidade de Terapia Intensiva. O tratamento dos dados baseou-se na analise temática, que possibilitou identificar as categorias: SAE enquanto prática do cuidar e SAE enquanto organização do trabalho. Constataram-se registros de avanços crescentes e significativos, porem observa-se uma dificuldade tanto teórica como prática de realizar a sistematização. Precisa-se investir em capacitações, e pesquisas, para evoluir da prática empírica para uma enfermagem baseada em evidencias e integral.
Palavras chaves:Processos de enfermagem; Unidades de terapia intensiva; Diagnóstico de enfermagem.
Analysis of the nursing personnel practice in carring throngh the systematization of the nursing assistence in the intensive care unit
The systematization of the nursing assistance as practice of the nursing personnel for change and qualification of the care and the legal requirement involved , has stimulated the present study wich aims at analysis the practice of the nursing personnel in what refers to the systematization of the nursing assistance (SNA) in individuals interned in the intensive care unit, making use of the diagnostic language of NANDA the methodology consisted of a field descriptive, exploratory, research with a qualitative approach. The collection of data was guided by a semi structured questionary and by de interview of 11 nurses of de intensive care unit. The treatment of de data was based on thematic analysis wich made it possible to identify the categories: SNA as caring practice and SNA as organization oh the work. It evidence increasing and significative advancer, a difficulty has from seem fath theoretical an practical, in mating the systematization a reality. It is needed investment in research and qualification to evolve from empirisar to a complete nursing care based an evidence.
Key Word: Processes of nursing; intensive care unit; nursing diagnosis.
Análisis de la práctica del enfermero al realizar la sistematización de la asistencia de enfermaría en la unidad de tratamiento intensivo
La sistematización de la asistencia de enfermería como práctica del enfermero para el cambio y cualificación del cuidado y la exigencia legal que la involucra estimula el presente estudio que tiene por objetive analizar la práctica del enfermero relativa a sistematización de asistencia de enfermeria (SAE) en individuos dados de baja en la unidad de tratamiento intensivo, utilizando el lenguaje diagnóstica de la NANDA. La metodología consistiá de una pesquisa descriptiva exploratoria, de campo, can enfoque cualitativo. La coleta de dados se norterá por un cuestionario semiestructurado y la entrevista de 11 enfermeros asistenciales de la unidad de tratamiento intensivo. El tratamiento de los dados se basá en el análisis temática que posibilitá identificar las categorías: SAE como practica del cuidar y SAE como organización del trabajo. Se constatado registrar de avances crecientes y significativos, pero se observa dificultad, tanto teórica como practica, en realizar la sistematización. Hay que investir en capacitaciones y pesquisas para evolucionar del empirismo a una practica del enfermeria basada en evidencias e integral.
Palabras de acceso: Procesos de enfermeria; Unidades de tratamiento intensivo; Diagnóstico de enfermeria.
*Prof. Dr. na FAMEMA, na disciplina de enfermagem clínica e no curso de especialização integrada em UTI.
** Estudantes do curso de especialização integrada em UTI.
1 Introdução
Ao iniciar nossa discussão sobre pratica profissional podemos refletir sobre o nosso modo de agir e o de sermos profissionais de saúde, o qual, requer por um lado, conhecimento do que precisa ser feito como técnica e como arte, e, por outro, conhecer as perspectivas éticas que possam fundamentar a moralidade profissional (1).
O enfermeiro, para realizar sua prática profissional, prestando assistência de enfermagem ao cliente, necessita ter conhecimento científico e domínio dos procedimentos, a fim de desempenhar suas atividades de forma ordenada e sistematizada, essencial para avaliar o estado de saúde do cliente. Segundo Horta (1979)(2) essas ações sistematizadas e inter-relacionadas, visando à assistência ao ser humano, praticadas de forma dinâmica, denominam – se processo de enfermagem.
De acordo com alguns autores(3), a sistematização possibilita que os enfermeiros identifiquem a presença de necessidades humanas básicas afetadas nos pacientes internados nas unidades específicas, e, assim, com conseqüentes diagnósticos classificados e respectivas intervenções de enfermagem estabelecidas, que podem caracterizar essas unidades, a equipe de enfermagem consegue prestar uma assistência planejada e fundamentada em conhecimentos, viabilizando um cuidado objetivo e individualizado.
Mas, o que são essas necessidades humanas básicas? Há inúmeros conceitos que exploram essas necessidades, mas podemos dizer que elas abordam tensões, conscientes ou inconscientes, resultantes dos desequilíbrios homeodinâmicos dos fenômenos vitais (2).
Assim podemos considerar que problema de enfermagem: são situações ou condições decorrentes dos desequilíbrios das necessidades básicas do indivíduo, família e comunidade, e que exigem da(o) enfermeira(o) sua assistência profissional.
No Brasil Wanda Horta foi à pioneira nos estudos relacionados ao processo de enfermagem, na década de 70, e introduziu uma nova visão de enfermagem, preconizando seis etapas, denominadas: Histórico de enfermagem (anamnese e exame físico), Diagnóstico de enfermagem, Plano assistencial, Prescrição de enfermagem, Evolução de Enfermagem e Prognóstico de enfermagem, denominando – se nos dias atuais como Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE)(2).
O diagnóstico compreendido como um das fases da SAE não é exatamente uma atividade nova na enfermagem já que Florence Nightingale por ocasião da guerra da Criméia (SÉCULO XVIII) já o elaborava no atendimento aos soldados feridos na luta. No entanto, foi somente por volta de 1920 que o termo “diagnóstico de enfermagem“ começou a aparecer na literatura norte americana. Em 1982 transformou-se oficialmente, fortaleceu-se e expandiu com a criação de um grupo norte americano para Classificação dos Diagnósticos de Enfermagem, oficializando como (NANDA) North American Nursing Diagnosis Association (4).
O diagnóstico de enfermagem segundo NANDA revelou-se como um instrumento que contribui para uniformização da linguagem entre os enfermeiros e para a melhoria da qualidade da assistência, direciona a assistência de enfermagem e possibilita o seu desenvolvimento, além de ser aplicável a diferentes referenciais teóricos(5). Neste estudo adotamos a definição da NANDA sobre diagnóstico de enfermagem (6).
O uso do diagnóstico de Enfermagem na prática do profissional enfermeiro tanto na assistência, pesquisa ou ensino é uma necessidade emergente. Isto possibilita o raciocínio lógico, fato que facilita a aplicação do processo de enfermagem em todas as suas etapas.
Tendo como respaldo profissional que regulamenta a SAE como um processo de organização da assistência de enfermagem, desde 1986 o planejamento da assistência de enfermagem é uma imposição legal. De acordo com a Lei do exercício profissional n° 7.498, art. 11, alínea c, “o enfermeiro exerce todas as atividades de enfermagem, cabendo-lhe: 1) Privativamente: c) planejamento, organização, coordenação e avaliação dos serviços de assistência de enfermagem” (7).
Reforçando a importância e necessidade de se planejar a assistência de enfermagem, a resolução COFEN n° 272/2002, art. 2ª afirma que a implantação da Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) deve ocorrer em toda instituição de saúde, pública e privada (8).
Podemos então destacar as inúmeras vantagens que a SAE proporciona aos profissionais de enfermagem: Melhoria da qualidade da assistência, visando à garantia do cuidado qualificado ao paciente, possibilitando uma visão mais ampliada da assistência e facilitando a avaliação do processo; É aplicável a diferentes referenciais teóricos; Direciona a assistência e o corpo de conhecimento, facilitando a sistematização do cuidado prestado; Uniformização da comunicação, criando uma linguagem própria para descrever os problemas do cliente que a enfermagem tem competência para resolver (9).
Alguns autores(3) destacam que existe hoje deficiência no cumprimento de algumas destas fazes e na documentação das mesmas, devido excesso de atribuições do enfermeiro, falta de preparo e resistência para utilização deste método de trabalho, falta de recursos materiais, dificultando a melhoria da qualidade da assistência de enfermagem.
Outros autores(9) relatam que a falta de prática, com a sistematização, acaba comprometendo, a realização de um planejamento, coerente e eficaz, trazendo prejuízos à assistência prestada ao paciente.
O desenvolvimento da proposta da SAE por meio do processo de enfermagem esbarra em muitas dificuldades, além dos anteriormente citados existe às necessidades de educação continuada dos enfermeiros da instituição, necessidade de ampliar os conhecimentos e o domínio do processo de julgamento clínico destes enfermeiros, que muitas vezes dão ênfase somente ao biológico, deixando de lado um olhar holístico; exige mudanças desse processo de reflexão sobre aspectos clínicos dos pacientes utilizando terminologia própria da enfermagem.
No hospital em que atuamos a proposta da SAE foi implantada na UTI em 1988, pelo enfermeiro responsável por este setor onde o referencial utilizado foi de Wanda Horta (1979), aplicando-se as fases: histórico de enfermagem, prescrição, evolução, anotação e avaliação. Vale considerar que estas fases eram as que no momento faziam parte do que se entendiam como SAE.
Somente em 2001 começaram a implementação do diagnostico de enfermagem utilizando a linguagem da NANDA para nortear a assistência. A partir de então reuniram os enfermeiros do hospital para realizarem o levantamento dos principais diagnósticos e intervenções de enfermagem que prevaleciam nas clinicas, criando assim um formulário pré impresso, cujo os enfermeiros poderiam completa-los de acordo com a necessidade de cada paciente.
No ano de 2002 o enfermeiro chefe do serviço de enfermagem do hospital, junto a um especialista em informática, elaborou um programa informatizado onde contemplavam os principais diagnósticos de enfermagem segundo NANDA, bem como as intervenções para cada diagnóstico, facilitando e valorizando ainda mais o trabalho da equipe de enfermagem.
Hoje esse programa apresenta além dos diagnósticos, as características definidoras, fatores relacionados, fatores de risco, intervenções de enfermagem, metas e resultados. No entanto o histórico de enfermagem, ainda continua sendo feito em impresso próprio da instituição.
Na UTI a SAE é iniciada no momento em que o paciente é internado, os enfermeiros realizam o exame físico e a entrevista utilizando um formulário norteador (histórico de enfermagem), no entanto, identificamos que não há o registro formal dos dados coletados para validação dos diagnósticos no impresso formulado e descrito como Histórico de Enfermagem, ficando este ao nosso entender, somente como um norteador para a execução do levantamento de dados dos pacientes internados na UTI.
É nesse contexto, que pretendemos trabalhar a avaliação da real atuação do enfermeiro no desenvolvimento da SAE, identificando suas dificuldades e limitações, com intuito de melhorar esse processo de trabalho, proporcionando sempre uma atuação reflexiva sobre a prática profissional.
2 Objetivos
Objetivo geral:
Este estudo estabelece como objetivo analisar a pratica do enfermeiro referente a Sistematização da Assistência de Enfermagem (SAE) em indivíduos internados na Unidade de Terapia Intensiva, utilizando a linguagem diagnostica da NANDA.
Objetivos específicos:
· Compreender como o enfermeiro realiza a SAE em indivíduos internados na Unidade de Terapia Intensiva.
· Identificar como é realizado o exame físico, nesses pacientes internados na Unidade de Terapia Intensiva.
· Identificar quais são os critérios utilizados por esses enfermeiros para definir o diagnostico de enfermagem segundo NANDA.
· Compreender se há dificuldades com a equipe de enfermagem para que a mesma realize a prescrição de enfermagem.
· Identificar quais são os critérios utilizados para prescrição dos cuidados de enfermagem.
· Verificar a satisfação dos enfermeiros com a SAE implementada/realizada em sua unidade de trabalho;
· Relatar as sugestões dos enfermeiros entrevistados para melhorar o desenvolvimento da SAE.
3. Material e Método
Trata-se de um estudo caracterizado como descritivo, exploratório, de campo, com abordagem qualitativa. De acordo com Triviños (10) “o estudo descritivo pretende descrever com exatidão os fatos e fenômenos que determinam à realidade“,
Em outra descrição o autor(11) relata que a abordagem qualitativa favorece descrever a complexidade de determinado problema, compreender e classificar processos dinâmicos vividos por grupos sociais, contribuir no processo de mudança de determinado grupo e possibilitar, em maior profundidade, o entendimento das particularidades do comportamento dos indivíduos.
Este estudo foi realizado nas Unidade de Terapia Intensiva A e B de um o Hospital de Clínicas do interior do estado de São Paulo, esse hospital, è referencia para sua região e oferece assistência médico-hospitalar estando integrado ao Sistema Único de Saúde, através de convênio com a Secretaria da Saúde do Estado. Sua proposta é oferecer assistência a pacientes com patologias complexas, envolvendo procedimentos de alta tecnologia.
A opção pelo respectivo hospital foi feita considerando a nossa atuação como alunos da Especialização Multiprofissional de Terapia Intensiva e por ser um local que oferece condições para a realização da proposta.
A equipe de enfermagem deste setor é composta por 13 enfermeiros, desses 11 participaram do nosso estudo, apenas 02 não entraram na analise dos resultados, devida perda dos dados por falha do gravador, porém as perdas não foram significativas, pois as coletas obtidas nos forneceram subsídios para chegarmos a uma analise qualitativa.
Considerando que este estudo envolveu enfermeiros que atuam na Unidade de Terapia Intensiva do referido Hospital de Clinicas em estudo, encaminhamos inicialmente o nosso projeto de pesquisa para apreciação junto ao Comitê de Ética em Pesquisa do referido hospital, o qual manifestou parecer favorável ao trabalho.
Uma vez aprovado, inicialmente solicitamos aos enfermeiros entrevistados a assinatura de um termo de compromisso autorizando a coleta de dados (anexo I), explicando a eles as questões éticas envolvidas na pesquisa e esclarecendo os motivos pelo qual o estudo estava sendo realizado. Tal documento visou atender aos princípios éticos que norteiam as pesquisas envolvendo seres humanos (12).
A coleta de dados foi realizada na primeira quinzena de Dezembro/2006, mediante entrevista semi-estruturada que segundo Trivinos(10) é aquela que parte de certos questionamentos básicos, apoiado em teorias e hipóteses, que interessam à pesquisa, e que em seguida, oferecem amplo campo de interrogativas. A entrevista foi previamente agendada, e realizada nas unidades de atuação de cada enfermeiro (UTIS A e B), sendo que as informações foram gravadas e transcritas pelos autores da pesquisa para melhor analise dos dados, apenas dois enfermeiro se recusarão a entrevista gravada, mas colaboraram respondendo ao questionário através da escrita, enquanto respondiam, nos permanecemos do seu lado para qualquer dúvida em relação as questões, e para observarmos a fidedignidade das respostas
A análise dos dados se deu através do tratamento qualitativo obtida mediante a escuta e leitura sistematizada da entrevista/questionário aplicados, para analise reflexiva e critica do material, a fim de reconhecer os conhecimentos do enfermeiro acerca da temática, selecionar os elementos com potencialidade de serem utilizados, avaliando sua relação no desenvolvimento e alcance dos objetivos propostos.
4 Apresentação e Análise dos Resultados.
4.1 Caracterização dos sujeitos participantes do estudo
Verificamos que houve uma prevalência de enfermeiros do sexo feminino (73%), e no que se refere à idade a prevalência foi dos 24 à 29 anos.
No que se relaciona ao tempo de formação dos enfermeiros participantes do referido trabalho, podemos relatar que de 17 a 21 anos de formado representam 18% do total desses profissionais, de 11 a 16 (28%), de 05 à 10 (45%), e apenas 1 (9%) apresenta tempo menor que 5 anos de formado.
Vale considerar que descrevemos somente o tempo de formação profissional, ou seja, período após a graduação em enfermagem. Estes dados não representam o tempo de experiência na Unidade de Terapia Intensiva, neste sentido, a título de esclarecimento identificamos que 10 dos enfermeiros (91%) possuem de 1 a 4 anos de atuação na referida unidade e que estes também possuem além de experiência, titulação nesta área (especialização em UTI).
4.2 A prática do cuidado sistematizado na Terapia Intensiva.
A analise qualitativa foi possível após várias leituras dos dados, e referente ao conceito de SAE apresentado pelos enfermeiros identificou-se às categorias: cuidado, e a organização do trabalho.
A SAE enquanto uma prática do cuidado é relatada pelos enfermeiros entrevistados como uma ação de: orientação, direcionamento, organização, priorização, uniformização. Conjunto de etapas baseadas na experiência vivida, sistema que possibilita um atendimento ao paciente hospitalizado, ou em internação domiciliar. Análise clinica que possibilita o enfermeiro tirar suas conclusões, os quais seriam os problemas para atuar na intervenção de enfermagem podendo incluir a família nesta análise. A partir de uma avaliação do paciente identificam os cuidados necessários.
Observamos que ao incluírem a família no levantamento dos dados, e não como uma possível ajuda, traz um diferencial para a prática da SAE, pois a família, sem dúvida, consiste em um foco de atenção para os profissionais da saúde, pois ela representa uma continuidade do paciente, e influencia na sua recuperação e reabilitação.
Assim, a assistência à família como unidade do cuidar implica em conhecer como cada família cuida, e identificar as suas forças, suas dificuldades e seus esforços para partilhar as responsabilidades. Com base nas informações obtidas, os profissionais devem usar seus conhecimentos sobre cada família, para junto dela, pensar e programar a melhor assistência.
Ao relacionar a sistematização do cuidado com as experiências vividas, apontam que a qualificação profissional contribui para esta prática. Entretanto precisa-se incluir outras fontes para priorizarem as intervenções de enfermagem, e uma prática baseada em evidências possibilita uma segurança neste fazer.
Para outros pesquisadores(13) a prática baseada em evidências não conta com a intuição, observações não sistematizadas ou princípios patológicos. Eles enfatizam o uso de pesquisas para guiar a tomada de decisão clínica. Assim, a prática baseada em evidências combina a pesquisa com a experiência clínica e as preferências do paciente para realizar uma decisão sobre um problema específico.
A SAE enquanto organização do trabalho foi descrita pelos entrevistados por: possibilitar o controle da realização dos cuidados prescritos, mediante a conferencia de registros no prontuário. Por direcionar a assistência; favorecendo o planejamento das ações, à continuidade das mesmas; e a garantia que as intervenções serão realizadas e não modificadas.
A SAE referenciada como um processo norteador da organização do trabalho consiste em uma ação esperada da sistematização, em contra partida as prescrições de enfermagem podem ser modificadas, pois são construídas e planejadas, mediante a necessidade do paciente, e priorizada de acordo com o pessoal disponível para desenvolver as ações prescritas. Por outro lado, os enfermeiros precisam modificar as prescrições de acordo com as reais necessidades do paciente, considerando a instabilidade hemodinâmica presente nos mesmos.
No relato de Marin, Messias e Ostroski (5) faltam maior divulgação e momentos de reflexão por parte dos enfermeiros. Nessa perspectiva Garcia e Nóbrega(14) afirmam que a reflexão sobre a ação, nada mais é do que pensar sobre o que se esta fazendo, enquanto se esta fazendo algo. A reflexão em ação é caracterizada por algo que surpreende ou desafia o praticante enquanto esta no processo de realização de uma atividade profissional e resultam em questões chaves no meio da ação:
1. O que eu estou observando aqui e o que isso significa?
2. Que julgamento estou fazendo através de que critérios?
3. O que estou fazendo e por quê?
4. Há alguma ação alternativa além desta que estou realizando?
Em síntese, a reflexão em ação habita a pessoa a remodelar a ação enquanto ela esta sendo realizada, é um processo de pensamento dinâmico, em espiral, que leva a mudança na prática.
Em relação à realização do exame físico alguns enfermeiros o consideram: como ausculta cardíaca e pulmonar. Relatam que esta ação não é prioridade na rotina dos enfermeiros, realizam apenas na admissão do paciente. Orientam-se pela seqüência céfalo-caudal, direcionando o exame de acordo com a patologia apresentada. Há enfermeiros que não realizam o exame físico por falta de conhecimento teórico-prático, mas alguns descrevem com propriedade esta prática.
Na prática do exame físico observa-se que para esses enfermeiros a avaliação clinica não é abordada como ação diferencial, algo particular de cada individuo, pois priorizam a doença que motivou a internação na UTI, e deixam de lado uma avaliação freqüente, justificando-se através do excesso de trabalho burocrático e administrativo.
Observa-se que há enfermeiros com menor aproximação de conhecimento em semiologia clínica como uma postura científica, para direcionar a analise da clinica apresentada pelo paciente.
Ao realizar o exame físico, o enfermeiro tem em vista procurar alterações na normalidade para identificar problemas relacionados ao processo saúde-doença, avaliar o paciente a partir de uma perspectiva holística mediada por uma relação de aproximação com o cliente, buscando maneiras de cuidar (15).
Em relação ao diagnostico de enfermagem, a maioria dos enfermeiros não tem uma clareza de critérios para elegê-lo, sendo construído a partir: do diagnostico medico, e identificam-no com o auxilio do sistema informatizado do hospital. Fazem distinção entre diagnostico e sistematização, muitas vezes não realizam o histórico, ou seja, a primeira parte do processo de enfermagem.
O diagnostico de enfermagem é o julgamento clínico do enfermeiro, e seria muito mais produtivo se associada a essa prática, viesse a conscientização sobre a sua importância, a crença na sua função estratégica de tornar o enfermeiro mais competente, mais reconhecido pela comunidade, pelos profissionais da equipe de saúde e por seus pares(4).
Quanto aos critérios para definição do diagnostico, uns se baseiam no risco que o individuo será submetido devido à internação na Terapia Intensiva, alguns associam o critério ao referencial da NANDA, a quem utilize o levantamento de dados obtidos através do exame físico e anamnese, outros incluem exames laboratoriais, mas não deixam claro como priorizam o diagnostico de enfermagem. Um enfermeiro pontua fatores relacionados e características definidoras como critérios para elaborá-lo (4).
O diagnostico de enfermagem revela-se como uma etapa de interdependência com as demais etapas da SAE, porem a qualidade da assistência não é garantida simplesmente pela mesma. A etapa da coleta de dados que contempla os múltiplos aspectos influenciadores do estado de saúde, sejam eles fisiológicos, psicológicos, sociais, espirituais ou econômicos, consiste de fundamental importância na determinação do diagnostico de enfermagem e no planejamento da assistência(5).
Entretanto na nossa unidade de estudo, a implantação do diagnostico informatizado existe, necessitando apenas de aprimoramento, para os enfermeiros utilizarem no processo de trabalho, fazendo-os refletir sobre essa prática, pois promove a integração da coleta de dados ao planejamento das ações, envolvendo julgamento clinico, avaliação crítica e tomada de decisão.
Quanto a dificuldade com a equipe na realização do plano de cuidados, a maioria dos enfermeiros relata: não terem dificuldades quanto a realização do plano de cuidados pela equipe, mas há enfermeiros que apontam a “incorporação” dos cuidados, ou seja, não tem a prescrição como base norteadora na execução do cuidado. Também, identifica uma desvalorização dessa prática pelo enfermeiro, o que acaba refletindo no trabalho da equipe de enfermagem, pois os auxiliares de enfermagem realizam os cuidados de forma mecânica, atribuindo a sua assistência uma uniformização pré-estabelecida, deixando de realizar a leitura do que foi realmente prescrito e priorizado para o paciente que esta sob seus cuidados.
A desvalorização da prescrição de enfermagem compromete a credibilidade da prática da SAE como ação integradora do cuidado. O plano de cuidados qualifica a assistência, deve estar voltado para as diretrizes do Sistema Único de Saúde, ou seja, na perspectiva da integralidade, eqüidade, universalidade. Abordar os aspectos bio-pscico-sociais na terapia intensiva requer habilidade para lidar com as incertezas decorrentes da instabilidade hemodinâmica do individuo doente, o que requer capacitação permanente.
Em relação a satisfação profissional: a maioria dos enfermeiros descrevem estarem satisfeitos como a prática da SAE, e referenciam a estrutura do programa desenvolvido e informatizado por contribuir com a otimização do tempo. A insatisfação se localiza na necessidade de implantar um instrumento para o histórico de enfermagem nessa instituição, consideram esta prática incompleta e fragmentada, e que precisam melhorar a comunicação entre os enfermeiros de diferentes turnos.
Os enfermeiros apontam como sugestões para melhorar a prática da sistematização: a motivação profissional; introdução de capacitações como educação permanente e continuada; e elaboração de um instrumento para o histórico de enfermagem. Nesse sentido podemos observar que eles estão refletindo sobre sua prática profissional.
Na tentativa de nos aproximarmos à definição do termo motivação, retomamos sua origem na palavra motivu, do latim, que significa “que move ou o que pode fazer mover”. Ela é uma ação realizada pelos indivíduos na tentativa de atender as necessidades insatisfeitas. Trata-se do desejo de esforçar-se para alcançar uma meta ou recompensa que diminua a tensão causada pela necessidade (16).
Segundo esses mesmos autores(16) existem dois tipos de motivação: a motivação intrínseca provém do interior do individuo impulsionando-o a ser produtivo; e a motivação extrínseca é aquela realçada pelo ambiente de trabalho ou por recompensas externas após a conclusão do trabalho.
Pelo fato de as pessoas terem, constantemente, necessidades e desejos, podemos dizer que elas sempre estão motivadas de alguma forma. Além disso, uma vez que todos os indivíduos são singulares e possuem necessidades diferentes, eles estão diferentemente motivados.
Acredita-se que a motivação, em decorrência da sua complexidade e dificuldade, parece não ser esgotável, necessitando, assim, de maior aprofundamento e atenção das organizações e instituições formadoras. A existência do pressuposto de que podemos motivar as pessoas, evidencia a necessidade de resgatar a diferenciação entre satisfação e motivação, pois a motivação surge das necessidades humanas e satisfação é considerada o atendimento de uma necessidade ou sua eliminação, portanto, considerados opostos e não sinônimos(16).
Quanto a educação continuada e permanente ela assume importante papel diante das demandas expressivas de capacitações decorrente da presença da alta tecnologia, e o constante desafio para os enfermeiros que trabalham nas UTIs, por ser uma unidade que exige freqüentes aprimoramentos e uma postura reflexiva frente as situações instáveis dos pacientes.
A educação continuada é uma atualização de conhecimentos específicos para profissionais específicos. Ocorre de forma descendente, a partir de uma leitura geral dos problemas, identificando-se temas e conteúdos a serem trabalhados geralmente sobre o formato de cursos. As atividades educativas são construídas de maneira desarticulada em relação à gestão, à organização do sistema e ao controle social, além de ser pontual fragmentado e se esgotando em si mesmo. Já a educação permanente requer que se trabalhe com elementos que façam sentido para o sujeito envolvido (aprendizagem significativa). O objetivo principal é a transformação das práticas da equipe, que ocorre de forma ascendente, a partir da análise coletiva dos processos de trabalho, e levando em conta as necessidades específicas dos profissionais e das equipes(12).
.Considera-se importante e necessário à qualificação profissional dos enfermeiros, para que possam acompanhar avanços e as transformações sócio-econômicas e tecnológicas, visando à melhoria da assistência prestada à clientela, além da adoção de uma postura mais critica e reflexiva nos aspectos profissionais e estruturais.
5 Considerações finais
Investigar a prática da SAE na terapia Intensiva nos possibilitou ampliar os referencias teóricos que a envolve compreender o quanto é difícil introduzir novas tecnologias no fazer do enfermeiro, e o quanto é diverso a utilização desse instrumento no cotidiano da prática profissional.
A metodologia nos favoreceu atingir os objetivos propostos de modo a identificar como os enfermeiros desenvolvem essa prática e também proporcionou que os mesmos refletissem sobre sua atuação diante dessa atividade.
A coleta de dados ocorreu com a gravação das entrevistas, mas os enfermeiros sentiram-se inibidos, nervosos, o que limitou responder as questões, em conseqüência dois dos entrevistados solicitou não gravar a entrevista, transcrevendo suas respostas. Consideramos que a gravação possibilita uma riqueza de idéias, porém nem todos os entrevistados se sentem a vontade com essa técnica.
Deve-se investir na qualificação desses profissionais para que os mesmos tenham clareza e subsídios científicos para melhor desenvolver a SAE, de modo a incorporar, valorizar essas ações, e reconhecer esse processo como diferencial, priorizando o cuidado integral.
A sistematização da assistência de enfermagem vem sendo realizada por muitos profissionais, registrando-se avanços crescentes e significativos, porem precisa-se investir em estudos, e pesquisas, para evoluirmos da enfermagem empírica para uma enfermagem baseada em evidencias.
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