Graduação em Curso de Enfermagem e Obstetrícia pela Faculdade de Medicina de Marília (1985).
Mestrado em Escola de Enfermagem pela Universidade de São Paulo Ribeirão Preto (1995).
Doutorado em Escola de Enfermagem pela Universidade de São Paulo Ribeirão Preto (2001)
Especialização: Enfermagem cardiovascular na modalidade de residência, Administração da assistência de enfermagem, Enfermagem médico cirúrgica e Terapia intensiva.

 

Pedro Marco Karan Barbosa

Professor Doutor - FAMEMA






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SAE - Síndrome de Guillain – Barré PDF Imprimir E-mail
Escrito por Pedro Karan   
Seg, 12 de Outubro de 2009 12:30

Sistematização da assistência de enfermagem utilizando a conexão NANDA, NIC e NOC a um paciente com Síndrome de Guillain – Barré: uma contribuição para o processo de ensino-aprendizagem.

*Pedro Marco Karan Barbosa.

**Karla Oliveira Marcacine.

O presente estudo visa identificar os diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem a um paciente hospitalizado,como a finalidade de promover o processo de ensino aprendizagem junto ao doente e seus familiares preparando-os para alta hospitalar. Trata-se de uma revisão bibliográfica a partir de um relato de experiência, onde o estabelecimento dos diagnósticos foram feitos pelos enfermeiros responsáveis pela unidade de internação utilizando a conexão NANDA, NIC e NOC, tendo como referencial HORTA (1979). Os diagnósticos considerados como nucleares foram: Integridade da pele prejudicada e Déficit no autocuidado para banho/higiene/vestir-se/arrumar-se, e as intervenções e resultados seguiram o proposto por NIC e NOC, possibilitando a sua implementação e estabelecendo-se assim o processo de educação. Ao concluirmos, verificamos que os diagnósticos, intervenções e resultados contribuíram para a organização do cuidado, bem como, facilitaram a educação do cliente e seus familiares para a condução da assistência na alta hospitalar, fazendo-nos entender a importância de realizarmos o processo de referência e contra referência com a unidade básica de saúde responsável por este paciente, propiciando a continuidade e avaliação das intervenções propostas.

Palavras chaves: diagnóstico de enfermagem, intervenções, resultados, educação.

Sistematización de la asistencia de enfermería utilizando la conexión NANDA, NIC y NOC a um paciente com Síndrome de Guillain-Barré: uma contribución para el proceso de enseñanza-aprendizaje.

El presente estudio visa identificar los diagnósticos, intervenciones y resultados de enfermería a un paciente hospitalizado, así como trabajar el proceso de educación junto al enfermo y sus familiares preparándolos para el alta del hospital. Se trata de relato de experiencia, donde el establecimiento de los diagnósticos fueran hechos por los enfermeros responsables por la unidad de internación utilizando la conexion NANDA, NIC y NOC, teniendo como referencial HORTAL (1979). Los diagnósticos considerados como nucleares fueran: Integridad de la piel perjudicada y déficit em el auto-cuidado para baño/higiene/vertirse/arreglarse, y las intervenciones y resultados siguieron el propuesto por NIC y NOC, possibilitando su implementación y estableciéndose, así, el proceso de eucación. Así que concluimos, verificamos que los diagnósticos, intervenciones y resultados contribuyeran para la organización del cuidado, bien como, facilitaran la educación del cliente y sus familiares para la conducción de la asistencia en el alta del hospital, haciéndenos entender la importancia de que realicemos el proceso de referencia y contra referencia con la uidad básica de salud responsable por este paciente, propiciando la continuidad y evaluación de las intervenciones propuestas.

Palabras clave: diagnóstico de enfermería, intervenciones, resultados, educación.

Systematization of the nursing assistance using the NANDA, NIC and NOC conexion to a patient with Guillain-Barré Syndrome: a contribution to the teaching-learning process.

The present study aim to identify the nursing diagnoses, interventions and results to a hospitalized patient, as well as to work the education process with the sick person and his related preparing them for the hospital discharge. It is an experience report, where the diagnoses settlements were done by the nurses responsible for the admission unit, using the NANDA, NIC and NOC conexion, having HORTA (1979) as a reference. The diagnoses considered as nuclear were: Skin integrity impaired and deficit on the self-care for bathing/hygiening/changing/making-out, and the intentions and outcomes followed the proposed by NIC and NOC, making possible its implementation and establishing the education process. By concluding, we have verified that the diagnoses, interventions and results have contributed to the care organization, as well have facilitate the client and his related education for the assistance conduction on the hospital discharge, making us understand the importance of performing a reference and counter-reference process with the health basic unit responsible by this patient, propitiating the proposed interventions continuity and evaluation.

Key words: nursing diagnoses, interventions, results, education.

*Prof Dr. do curso de Enfermagem da FAMEMA, Chefe do serviço de Enfermagem do HC – Marília

** Graduanda do curso de enfermagem da FAMEMA

Introdução

Durante nossa experiência atuando em uma unidade de internação de pacientes clínico/cirúrgicos, tivemos a oportunidade de vivenciar e conduzir a assistência prestada ao indivíduo hospitalizado com diagnóstico médico de Síndrome de Guillain-Barré (SGB) considerada pelos profissionais da saúde como grave e que traz seqüelas por vezes irreversíveis ao cliente.

Como norteador do processo de assistência de enfermagem, desenvolvemos a sistematização da assistência de enfermagem aos pacientes sob nossa responsabilidade, utilizando como referencial o Processo de Enfermagem (PE) de Horta(1), adotando as fases de levantamento de dados, realização e validação dos diagnósticos individuais de cada paciente, planejamento das intervenções (metas a curto e longo prazo), execução das intervenções propostas e avaliação do plano de cuidados realizado.

Nesta Unidade, realizamos cuidados necessários a indivíduos com diversas e diferentes limitações, tanto físicas quanto psíquicas, implementando-se desta forma o Processo de Enfermagem individualizado a cada um deles utilizando a linguagem diagnóstica de North American Nursing NANDA - II.

Com a utilização desta linguagem diagnóstica, pudemos adquirir novos conhecimentos quanto à atuação do enfermeiro, além de estimular indagações à cerca do plano de cuidados oferecidos, visando à promoção, prevenção e reabilitação dos mesmos, nos preocupando em como vamos inserir este doente na sociedade, considerando as potencialidades existentes da evolução da doença e nos cuidados que serão oferecidos em seu domicilio.

Neste sentido, o presente estudo tem por objetivo identificar os diagnósticos, intervenções e resultados de enfermagem, utilizando a conexão North American Nursing (NANDA), Nursing Interventions Classification (NIC) e Nursing Outcomes Classification (NOC), a um paciente com Síndrome de Guillain-Barré, com a finalidade de promover o processo de ensino-aprendizagem ao doente e seus familiares considerando a possibilidade de alta hospitalar.

MARCO DE REFERENCIA

A SGB atualmente é definida como uma polirradiculoneuropatia desmielinizante inflamatória aguda (PDIA) com transtorno desmielinizante dos nervos periféricos, do tipo monofásico que apresenta regressão espontânea, sendo uma enfermidade auto-imune desencadeada por uma infecção viral ou bacteriana, caracterizando-se por apresentar paralisia flácida associada à arreflexia, transtornos sensoriais variados e elevação das proteínas do líquido cefalorraquidiano. Esta patologia tem como complicações uma debilidade simétrica, rapidamente progressiva, ascendente aguda que se manifesta inicialmente através de uma fraqueza generalizada, parestesia e cãibras musculares transitórias, com perda dos reflexos osteotendinosos e leve alteração ou ausência da sensibilidade sensitiva, podendo vir a afetar a musculatura respiratória em 30% dos casos, levando o paciente ao óbito(2).

O paciente acometido pela SGB poderá permanecer imobilizado por tempo indefinido, necessitando assim de cuidados de diversos profissionais, dentre eles, médicos, enfermeiros, psicólogos, nutricionistas e de intervenção prematura de uma equipe de reabilitação(2).

De acordo com Leininger(3), as pessoas desenvolvem comportamentos de cuidar diferentes e a forma como os expressam está ligada a padrões culturais, desta forma cuidar/cuidado pode significar: aceitar, assistir os outros, ser autêntica (o), envolver-se, estar presente, confortar, preocupar-se, ter consideração, ter compaixão, expressar sentimentos, fazer, tocar, amar, ser paciente, proteger, respeitar, compartilhar, compreender, ter habilidade técnica, demonstrar conhecimento, segurança, valorizar o outro, ser responsável, usar silêncio, ouvir.

Desta forma, acreditamos que devemos elaborar cuidadosamente o PE, considerando a as necessidades do paciente assim como a gravidade do quadro por ele apresentado, procurando sempre trabalhar o processo de educação com o doente e seus familiares.

O PE é primordial em qualquer circunstância, uma vez que se trata de um método eficiente de organização de pensamentos para a tomada de decisões e solução de problemas. Neste âmbito, o enfermeiro deixa de ser simples executor de tarefas ou de normas ditadas por outros profissionais, para assumir a autodeterminação de suas funções, para ajustar princípios e medidas administrativas à solução de problemas específicos de sua competência.

O PE consolida-se na prática clínica da enfermagem e preenche as necessidades que o enfermeiro tem de coletar dados percebidos e/ou relatados, realizar exame físico, identificar as necessidades de cuidados, propor intervenções e avaliar os resultados dos cuidados que realiza. A documentação do PE é instrumento útil, mantendo abertas às linhas de comunicação entre os membros da equipe de cuidados, além de avaliar o cuidado pelo gerenciamento das informações de enfermagem.

A fase do diagnóstico de enfermagem vem sendo introduzida no PE em vários serviços de enfermagem do Brasil. A inserção do diagnóstico de enfermagem exige que os enfermeiros tenham uma linguagem comum que favoreça o entendimento entre os seus pares sobre os fenômenos clínicos de interesse, norteando as decisões sobre o que fazer por eles. A contextualização do diagnóstico de enfermagem no PE pode ter efeitos positivos na definição dos fenômenos, na proposição de intervenções de enfermagem e avaliação dos resultados obtidos.

A implementação de uma classificação diagnóstica na prática clínica permite aos enfermeiros nomear com maior clareza os focos do cuidado pelos quais são responsáveis, oferecendo assim um atendimento mais qualificado. Para tal nomeação é necessário que os enfermeiros envolvidos nesse processo compartilhem das mesmas “idéias” sobre as “coisas” pelas quais pensam ser responsáveis no processo de cuidar(4,5).

A inserção do diagnóstico de enfermagem na prática diária requer uma mudança planejada e organizada: preparação da equipe; realização de cursos, seminários; informatização do serviço; acordo entre a equipe multidisciplinar sobre a linguagem comum que será utilizada pelo serviço; criação de grupos facilitadores; reuniões mensais com a equipe e diretoria do serviço. Por estes fatores a implementação deste sistema constitui-se em um grande desafio para todos da equipe de enfermagem. Esta inserção da classificação de enfermagem nos serviços devem ser acompanhados de uma avaliação sistemática de seus resultados, visando um contínuo planejamento para manutenção e refinamento da sua utilização(6).

A enfermagem ainda não conta com uma taxonomia completa com diagnósticos que transmitam o mesmo sentido a todos os enfermeiros. A organização oficial que tomou a atribuição para a elaboração da taxonomia dos diagnósticos de enfermagem e pela formulação desses diagnósticos para estudo é a North American Nursing Diagnosis Association (NANDA). A NANDA considera o diagnóstico de enfermagem como um juízo clinico sobre respostas individuais, familiares ou comunitários a problemas de saúde/ processos vitais, reais e potenciais, oferecendo uma base para a seleção das intervenções de enfermagem para o alcance dos resultados que são de responsabilidade do enfermeiro.

A Taxonomia da NANDA – II, conforme a revisão de 2005(7) é estruturada em 13 domínios e 47 classes, contendo 172 diagnósticos de enfermagem. Um domínio representa uma “esfera de atividade, estudo ou interesse”(7). Ele reflete o conteúdo dos seus diagnósticos e representa a similaridade de seu contingente. Uma classe é uma subdivisão de um grupo maior, uma divisão de pessoas ou coisas por qualidade, grau ou categoria. Um diagnóstico de enfermagem consiste em “um julgamento clínico sobre a resposta de um indivíduo, uma família ou ema comunidade com relação a problemas de saúde reais ou potenciais/ processo de vida que fornece a base para uma terapia definitiva que busca alcançar resultados nos quais a enfermagem é necessária”(7).

A implementação dessa linguagem comum implica em um acordo sobre o que os seus termos representam para quem a utiliza em proposição de intervenções para os diagnósticos de enfermagem e verificação de resultados alcançados com as intervenções realizadas(8).

Ligações entre os diagnósticos da NANDA – II e as intervenções da Classificação Intervenções de Enfermagem (Nursing Interventions Classification – NIC) relacionam um diagnóstico com uma ou mais intervenções de enfermagem para que se obtenham resultados possíveis e desejáveis para o paciente, a partir da classificação da NOC (Nursing Outcomes Classification). Essas ligações facilitam a fundamentação diagnóstica e a tomada de decisão clínica pelo enfermeiro sobre os resultados desejáveis e sobre as intervenções para alcançá-los.

A conexão entre as linguagens padronizadas aqui referidas como NANDA, NIC, NOC e a sua harmonização é um grande passo para que os enfermeiros possam “mapear o território” pelo qual têm responsabilidade(9).

A atual classificação da NOC(8) é uma lista de 260 resultados de enfermagem com definições, indicadores e escalas de medidas. Os resultados podem ser usados para indivíduos, famílias e comunidades. Os resultados representam estados do paciente/cliente que podem variar, ser mensurados e comparados a dados iniciais ao logo do tempo do tratamento de enfermagem e após as intervenções propostas. Eles definem um estado do paciente em determinado momento do tempo e podem indicar melhora ou piora(8).

A NOC(8) faz uso do termo indicador de resultado de enfermagem para descrever estados específicos do paciente que reagem às intervenções de enfermagem e para os quais podem ser definidos como procedimentos de medida. A medida de resultado de enfermagem é a operação ou atividade que descreve de maneira precisa qual o indicador de resultado que deve ser medido, a forma e a maneira como será quantificado(8).

As intervenções de enfermagem descrevem os comportamentos dos enfermeiros mediante a preocupação de obter resultados dos pacientes a partir dos fenômenos tratáveis pelo enfermeiro, os diagnósticos de enfermagem(8).

Os resultados e as intervenções são selecionados em relação a um determinado diagnóstico de enfermagem. A intervenção está voltada para a alteração dos fatores relacionados dos diagnósticos de enfermagem da NANDA(4) ou de qualquer outra classificação diagnóstica que se esteja utilizando. Se a intervenção é bem sucedida em alterar a etiologia, pode-se esperar a melhora do estado do paciente. Nem sempre é possível mudar os fatores etiológicos, e se assim for, é necessário tratar os sinais e sintomas ou as características definidoras, segundo NANDA – II(4,10).

Cada intervenção possui um código específico com quatro dígitos. As atividades relacionadas às intervenções não possuem códigos, mas são codificáveis, se preciso for. Nem todas as atividades pertencentes a uma determinada intervenção são necessariamente utilizadas quando se faz a escolha da intervenção(10).

Outro aspecto a ser considerado para o desenvolvimento da assistência aos pacientes e internado e seus familiares, é o processo da educação, no sentido de promover segurança para a execução de atividades relacionada aos cuidados, procurando proporcionar uma alta hospitalar que atenda das necessidades do doente em seu lar.

Durante o período de internação deste paciente trabalhamos a educação em saúde com o binômio paciente/família, a educação é um processo que beneficia o paciente, auxiliando-o ao alívio de ansiedade e medos, no conhecimento de sua doença e debilidade, favorecendo sua compreensão para o enfrentamento positivo da mesma. Também o beneficia na aceleração do retorno ao convívio familiar, na retomada das atividades desenvolvidas anteriormente, na redução do custo com a hospitalização; na elevação de sua auto-estima pelo aumento da efetividade do tratamento e regressão das sintomatologias, na prevenção de queixa acerca dos cuidados, além de desenvolver suporte aos esforços daqueles que lhe prestam cuidados(11).

Neste âmbito, abordam-se cuidados específicos que visem à prevenção de complicações, melhora da qualidade de vida do paciente e fornecimento de apoio e tranqüilidade à família, pois, na maioria das vezes, os pacientes recebem alta apresentando seqüelas que necessitam de atenção e cuidados por parte dos familiares. Essas atividades têm como objetivo preparar a família para o cuidado no domicílio e ensinar o indivíduo a procurar atingir seu maior potencial de saúde, encorajando-o para modificações de hábitos e estilos de vida em direção a uma melhor qualidade de vida(12) .

Embora a reabilitação comece já no dia em que o paciente sofre o acometimento de uma determinada doença, o processo é intensificado durante a convalescença e requer um esforço coordenado da equipe de saúde. É importante, para a equipe, saber como era o paciente antes de sofrer a lesão, suas doenças, capacidades, estado mental e emocional, características de comportamento e atividades diárias (13). Conhecer o paciente permite um cuidado individualizado que almeja o retorno integral às atividades anteriormente realizadas.

Outro aspecto relevante e fundamental na reabilitação do paciente é o envolvimento da família, como elemento integrante da equipe assistencial, no sentido de participar e dar continuidade ao processo que está sendo implementado(14). Desta forma, as orientações devem estar presentes durante todo o tempo de permanência do paciente no ambiente hospitalar, para que os familiares possam adquirir todos os conhecimentos necessários para dar continuidade aos cuidados no domicílio(15).

Os enfermeiros juntamente com a equipe multiprofissional, no papel de educadores em saúde, precisam estar conscientes de que internação constitui-se em um momento singular na vida de seus pacientes, enquanto a família é uma instituição permanente que os assiste. É essencial, portanto, a orientação, tendo em vista a capacitação das famílias para o cuidar, em especial no caso de doenças que possam necessitar de um período de reabilitação demorado(15).

Metodologia

Este estudo foi desenvolvido em uma unidade constituída por 16 leitos de internação destinados a receber pacientes clínico / cirúrgico provenientes do setor de urgência/emergência do Hospital das Clínicas de Marília – Unidade I.

Trata-se de uma revisão bibliográfica realizada a partir de um relato de experiência, onde o desenvolvimento de recursos cognitivos, psicomotores e afetivos são construídos diariamente pelos enfermeiros responsáveis por este setor, considerando a individualidade de cada paciente.

Chizzotti(16), afirma que o relato de experiência pode ter a forma autobiográfica, onde o autor apresenta suas percepções pessoais, os sentimentos íntimos que marcaram a sua experiência ou os acontecimentos vividos no contexto da sua trajetória de vida ou experiência vivenciada.

O relato experiencial permite que o profissional observe, entenda, analise e descreva uma determinada situação real, adquirindo conhecimento e experiência que podem ser úteis na tomada de decisão frente a outras situações. É um método de investigação no qual o profissional tem um grande envolvimento e que inclui como etapas, a coleta de informações da experiência vivenciada e dos aspectos relevantes e problematizadores; um processo de pensamento, constituído por análise dos dados e determinação de soluções; e um processo de julgamento ou avaliação(17). A expectativa é que o profissional adquira conhecimento e experiência para tomar decisões, resolver, analisar e/ou criticar os aspectos identificados no relato experiencial.

Inicialmente fez-se a análise dos dados contidos no prontuário e uma avaliação informal (interação e observação) de um paciente internado na referida clínica com diagnóstico médico de Síndrome de Guillan-Barré, com a finalidade de estabelecer laços de confiança e conhecer as necessidades mais evidentes que permitissem organizar ações imediatas e a longo prazo. Este tipo de avaliação é o melhor caminho para reunir dados preliminares referentes às necessidades de aprendizagem, tanto do paciente quanto da família, uma vez que a educação do paciente e o planejamento para a alta hospitalar são funções vitais para a ênfase nos cuidados domiciliares e na redução da permanência no hospital.

Após essa etapa, retomou-se a anaminese e o exame físico. Sistematizamos os dados identificados para serem registrados em um instrumento próprio de coleta de dados utilizado na instituição, considerando o referencial de Horta(1).

Os achados no prontuário, na avaliação informal, na anaminese e no exame físico foram então agrupados para melhor análise, com a finalidade da elaboração dos diagnósticos de enfermagem utilizando a conexão North American Nursing (NANDA) - taxonomia II, Nursing Interventions Classification (NIC) e Nursing Outcomes Classication (NOC).

Os diagnósticos documentados durante o período de internação do paciente foram os considerados nucleares, ou seja, os indispensáveis para a condução do processo de assistência, podendo desta forma, estabelecer uma terapêutica considerada pelos pesquisadores como essencial e prioritária para a reabilitação da saúde do paciente em questão. As propostas de intervenções e resultados foram feitas com base na NIC(10) e NOC(8).

Uma vez validados os diagnósticos de enfermagem, bem como as intervenções e resultados a serem atingidos, procuramos trabalhar com o paciente e seus familiares, no sentido de educação, considerando a possibilidade da alta hospitalar.

Este processo de educação foi desenvolvido diariamente pelos enfermeiros e uma aluna do curso de enfermagem sob supervisão do professor orientador no próprio ambiente de internação durante o desenvolvimento da assistência de enfermagem, procurando desenvolver educação em saúde com o paciente e seu acompanhante (familiares).

Ressaltamos que houve interesse da necessidade de trabalhar os aspectos cognitivos e psicomotores favoráveis a sua reabilitação por parte do paciente e seus familiares, entendendo que este cliente não teria condições de autocuidado, e precisaria de ajudas constantes para sua vigilância a saúde.

Vale considerar que o referido trabalho foi apreciado pelo comitê de Ética em pesquisa considerando-o favorável para o seu desenvolvimento, bem como, esclarecimento ao paciente e familiares solicitando assim, assinatura em termo de consentimento para a sua aplicação.

Além disso, ainda em obediência aos princípios éticos, foi assegurado ao participante e seus familiares a isenção de prejuízos no atendimento prestado e o anonimato na apresentação dos resultados.

Apresentação dos resultados e discussão

Para melhor visualização dos diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem a este paciente, optamos em apresentá-las em um quadro contendo as características definidoras e fatores relacionados, bem como as classificações da NOC(8) e NIC(10) com seus códigos numéricos descrito entre parênteses. Vale ressaltar que os diagnósticos de enfermagem validados e apresentados pelos pesquisadores, foram aqueles considerados como nucleares, bem como as intervenções e resultados esperados.

Quadro 1 – Apresentação dos diagnósticos, resultados e intervenções de enfermagem a um paciente com Síndrome de Guillain-Barré.

Diagnóstico de enfermagem

Resultados e indicadores

(código de NOC(8))

Intervenções e atividades

(código de NIC(10))

Integridade da pele prejudicada

Relacionado a umidade fatores mecânicos, imobilização física. Proeminências ósseas, sensibilidade alterada, caracterizado por rompimento da superfície da pele (epiderme) em calcâneos.

- Integridade tissular: pele e mucosas (1101)

Sensação (110102), Cor (110107), Textura (110108), Espessura (110109), Perfusão tissular (110111), Integridade da Pele (110113);

- Cicatrização de feridas (1102)

Resolução de eritema (110208);

- Cicatrização de feridas (1103)

Resolução de drenagem serosa (110304)

Resolução de pele com bolhas (110310)

Resolução de queda de crosta (110313)

- Cuidados com lesões (3660)

Administrar cuidados a úlcera de pele, conforme a necessidade.

- Aplicar curativo oclusivo, quando adequado.

- Manter técnica asséptica no curativo ao fazer os cuidados da lesão.

Examinar a ferida a cada troca de curativo.

- Comparar e registrar regularmente toda mudança na lesão.

Posicionar de modo a evitar qualquer tipo de tensão sobre a lesão, quando adequado.

Déficit de auto-cuidado para banho/higiene, higiene íntima, vestir-se, arrumar-se.

Relacionado a dificuldade de obter ou chegar à fonte de água, pegar os artigos para o banho, secar o corpo, entrar e sair do banheiro, colocar roupa na parte inferior do corpo, caracterizado por prejuízo neuromuscular e / ou musculoesquelético.

- Autocuidado: atividade de vida diária (AVD) (0300)

Vestir-se (030002), Higiene (030002), Banho (03004), Arrumar-se (03005), Ambulaçao: cadeira de rodas (030009), Desempenho na transferência (030010);

- Autocuidado: Banho (0301)

Entra no banheiro e sai dele (030101), Consegue água (030103), Lava o corpo (030110), Seca o corpo (030111).

- Autocuidado: Higiene íntima (0310)

Reconhece e reage à bexiga cheia (031001), Reconhece e reage ao impulso de ter um movimento intestinal (031002), Ocupa vaso sanitário e desocupa-o (031003), Tira as roupas (031004), Faz higiene íntima após urinar ou evacuar (031007), ergue o vaso sanitário (031008), Ajusta as roupas após higiene íntima (031009);

- Autocuidado: vestir-se (0302)

Veste as roupas na parte inferior do corpo (030205), Despe as roupas (030211).

Assistência no autocuidado (1800)

Monitorar a capacidade do paciente para autocuidado independente.

Monitorar a necessidade do paciente de recursos de adaptação para higiene pessoal, vestir-se, arrumar-se, fazer a higiene íntima e alimentar-se.

Oferecer assistência até que o paciente esteja totalmente capacitado a assumir o autocuidado.

Auxiliar o paciente a aceitar as necessidades de dependência.

Encorajar o paciente a realizar atividades normais da vida diária conforme o seu nível de capacidade.

Encorajar a independência, mas interferir quando o paciente não consegue realizar algo.

Estabelecer uma rotina de autocuidado.

Levar em conta a idade do paciente ao promover as atividades de autocuidado.

- Assistência no autocuidado: banho/higiene (1801)

Colocar toalhas, sabonete, equipamentos de barba e outros acessórios na cabeceira da cama/banheiro.

Providenciar os artigos pessoais desejados.

- Assistência no autocuidado: higiene íntima (1804)

Retirar roupas essenciais para permitir a eliminação.

Auxiliar o paciente a usar o sanitário/cadeira higiênica/comadre/urinol, a intervalos específicos.

Analisar a reação do paciente a falta de privacidade durante a eliminação.

Facilitar a higiene íntima após o término da eliminação.

Repor as roupas do paciente após a eliminação.

Dar descarga no vaso sanitário/limpar o utensílio usado para eliminação.

Em estudo realizado nos Estados Unidos (19), a análise de 477.00 registros eletrônicos de pacientes hospitalizados mostrou que o número de diagnósticos de enfermagem por paciente variou de 1 a 11, com média de oito diagnósticos por paciente e os mais freqüentes foram: Potencial para Integridade da Pele Prejudicada, Déficit de autocuidado banho/higiene/vestir-se/arrumar-se e Integridade da Pele Prejudicada.

Em outro estudo clínico, na instituição pública do Município de Fortaleza – CE(20), especializada no atendimento de portadores de traumatismos e acometimentos raquimedulares, realizado em 2003, visando os “Fenômenos de enfermagem em portadores de lesão medular e o desenvolvimento de úlceras de pressão” pôde enunciar dois diagnósticos mais freqüentes: Mobilidade física prejudicada e Integridade da pele prejudicada, estabelecendo uma estreita relação entre os mesmos e as intervenções prescritas a serem realizadas. Os diagnósticos de Déficit de autocuidado banho/higiene/vestir-se/arrumar-se e Integridade da Pele Prejudicada também apresentam importância relevante em nosso estudo como relatam os autores mencionados acima.

Vale ressaltar que em nosso estudo apresentamos os diagnósticos de enfermagem nucleares utilizando a linguagem de NANDA a um paciente com Síndrome de Guillain - Barré, bem como os resultados e as intervenções segundo NOC(8) e NIC(10) para o acompanhamento integral deste doente, propondo trabalhar o processo de educação com o paciente e seus familiares, preparando-os para alta hospitalar.

No que se refere à educação do paciente, acreditamos que ela é uma experiência planejada e prevista para estimular mudanças em seu comportamento e em seu estado de saúde, portanto, a educação do mesmo juntamente com os seus familiares torna-se imprescindível para o sucesso no cuidado domiciliar. Desta forma, as orientações necessitam ser programadas de acordo com a realidade de cada paciente, buscando minimizar as inseguranças, melhorar a qualidade de vida social e familiar, prevenir complicações e/ou co-morbidades e evitar reinternações(12).

Para que as orientações tornem-se efetivas, é preciso que o assunto seja de interesse do familiar e que este esteja disponível para ouvir. Assim, ter reservado tempo para ouvir e entender empaticamente cada pessoa singularmente também fez parte do cuidado e é tão importante quanto o cuidado físico, visto que, para o familiar poder cuidar, é importante que ele também seja cuidado(12).

As orientações à família, além de preparar para o cuidado domiciliar, visam integrar esse familiar ao cuidado prestado durante a internação hospitalar. Encorajar o familiar a tocar o paciente e proporcionar-lhe momentos de conforto por meio de massagens, mudança de decúbito, exercícios passivos, entre outros, também deve ser incentivado pela equipe(12).

A família deve ser compreendida como uma aliada da equipe de saúde, promovendo conforto para que o paciente possa restaurar sua confiança e, assim, investir na sua recuperação. Como resposta ao conforto, o paciente experimenta ânimo, bem-estar e crescimento e poderá recuperar sua força e poder pessoal, o que o tornará capaz de mobilizar mecanismos para enfrentar problemas e desempenhar mais eficazmente seus papéis, melhorando sua qualidade de vida(21).

Além dos cuidados físicos, ou seja, aprender a fazer ou conhecer mudanças de decúbito, posicionamento no leito, prevenção de úlcera de pressão, reeducação vesical e intestinal, adequação de vestuário, da higiene e da alimentação, entre tantos outros focos de atenção, cabe manter um canal de comunicação com a família ou familiar para que os mesmos possam expressar suas dúvidas, medos, preocupações e, também, que possamos atender a este familiar individualmente ou mesmo encaminha-lo a um outro profissional que esteja atendendo o paciente(14).

As atividades educacionais de saúde são tão ou mais importantes que os cuidados em preparar para a vida fora do hospital, uma vez que são subsídios altamente significativos para o enfrentamento social do indivíduo com limitações. A meta a ser atingida é ensinar o indivíduo e seus familiares buscando alcançar seu maior potencial de saúde, encorajando-o para modificações de hábitos e estilos de vida em direção a uma melhor qualidade de vida tanto individual quanto coletivamente(12).

As orientações transmitidas à beira leito ao paciente e seus familiares durante todo o período de internação hospitalar estão fundamentadas na avaliação diária das necessidades individuais do paciente, através dos diagnósticos de enfermagem, relatos verbais e exames: físico, laboratoriais e de imagem. Essas orientações abordam cuidados com a pele (prevenção de lesões), higiene e conforto, mobilizações, hidratação e eliminações urinárias e intestinais e interação da família no processo do cuidado durante a internação do paciente e no preparo do ambiente domiciliar.

Conclusão

Considerando o objetivo proposto por este estudo, de contribuir com a melhoria da assistência de enfermagem, bem como, com o processo de ensino-aprendizagem ao doente e seus familiares, torna-se imprescindível o uso continuado dos diagnósticos na prática diária, os quais trazem constantes desafios, é com o próprio uso que os enfermeiros ajustam os significados dos enunciados diagnósticos, registrando o quadro clínico apresentado pelo paciente nas situações em que os aplicam e realizando os cuidados de forma individual e integral, o que possibilita e auxilia na sua atuação quanto ao desenvolvimento do processo ensino-aprendizagem com o binômio paciente/família.

Durante o período de internação hospitalar, presenciamos relatos verbais de familiares quanto ao processo de educação, preparando-os para a alta hospitalar, os quais demonstravam-se através da própria fala e de suas atitudes, uma maior compreensão do quadro clínico e maior segurança para realização dos cuidados necessários ao paciente, o que proporcionou e proporcionará maior conforto e melhor qualidade de vida tanto para o paciente quanto para a própria família.

Os diagnósticos, intervenções e resultados propostos pela conexão das classificações NANDA, NIC e NOC contribuíram para a organização do cuidado, bem como, facilitaram a educação do cliente e seus familiares para a condução da assistência na alta hospitalar, fazendo-nos entender a importância de realizarmos o processo de referência e contra referência com a unidade básica de saúde responsável por este paciente, propiciando a continuidade e avaliação das intervenções propostas, estabelecendo-se a integralidade entre os serviços de atenção primária e terciária e proporcionando a reabilitação adequada ao paciente.

é de extrema relevância para o acadêmico e enfermeiro participarem efetivamente da implementação das orientações dadas ao paciente e seus familiares, possibilitando o aprimoramento técnico e a aquisição de conhecimentos específicos.

Estudos como este, são importantes para a organização de conteúdos de ensino para acadêmicos e enfermeiros preparando-os para cuidar integralmente de pacientes em áreas gerais e específicas. Conhecendo os diagnósticos mais freqüentes da patologia da SGB, eles podem se preparar para realizar avaliações direcionadas para identificar esses diagnósticos e os resultados a eles relacionados, realizar as intervenções para atingi-los, assim como, desenvolver o processo ensino-aprendizagem com o paciente e seus familiares.

Referências

1) HORTA, W. A. Processo de Enfermagem. São Paulo: E.P.U – Editora Pedagógica e Universitária Ltda., 99 p., 1979.

2) SANTOS, C. M. T. et al. Como diagnosticar e tratar a Síndrome de Guillain-Barré. Revista Brasileira de Medicina – RBM, São Paulo, v. 61, n. 10, p. 638-643, out. 2004.

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